domingo, 31 de julho de 2016

Tinta dourada nos cabelos

Estirado em seu catre, Clóvis emite gemidos cada vez mais espaçados. A sensação de poder – efeito do último delírio provocado pela febre – começava a abandoná-lo, e ele já retornava à normalidade, àquela normalidade em que ele se encontrava desde que fora lançado naquele estado. Talvez fosse preciso amputar a perna, a esquerda. Talvez não precisasse. Mas não era isso o que o preocupava no momento. Do cômodo ao lado vinham os ruídos produzidos por Anna, às voltas com a trempe de cozinhar. Ele chamou-a:
— Anna! Anna!
Os ruídos cessaram momentaneamente para em seguida recrudescerem, mais fortes.
—Anna! Anna!
Havia uma parede separando os cômodos, o que fazia com que Anna ficasse fora do campo de visão de Clóvis. De qualquer modo, ele não poderia enxergá-la. Estava cego.
— Anna!
Anna finalmente entrou no cômodo, enxugando as mãos no avental encardido.
— O que você quer, Velho?
— Que horas são?
— Para quê você quer saber as horas? Não temos relógio.
— O meu mingau. Você fez o meu mingau, Anna?
Anna senta-se num banco, próximo à cama.
— Você não fez o mingau, Anna?
— Escuta aqui, Velho. Você pensa que fico o tempo todo por sua conta? Que não tenho minhas necessidades também?
Sério, Clóvis talvez pensasse no que responder a Anna, sentada ao lado do catre.
— Necessidades? Que necessidades, hein, Anna?
Anna levantou-se, brusca.
Vou terminar o meu serviço, disse ela, mas não se mexeu do lugar, fixando os olhos na perna devastada de Clóvis.
— Volta aqui, Anna.
Como Anna não respondesse, Clóvis pôs-se a berrar a plenos pulmões:
— Meu mingau! Traga o meu mingau! Anna, sua velha safada! Volta aqui e me diz que necessidades são essas que você tem, Anna. Anna!
Anna empurrou mais o banco para perto da cama de Clóvis. Sentou-se novamente.
— Você quer mesmo saber, Velho?
— O meu mingau, Anna.
— Está aqui o seu mingau.
Anna pega um prato cheio de mingau na mesinha postada à cabeceira da cama de Clóvis. Coloca ao seu lado e entrega-lhe uma colher, que ele pega, sôfrego e vacilante.
— Está frio.
Clóvis cospe o mingau.
— Está sem açúcar.
— Essa é boa. Você sabe muito bem que não pode mais com açúcar.
— Anna, coloque açúcar no meu mingau.
Ela abana a cabeça, negando. Mas Clóvis não viu o gesto. Clóvis não pode ver Anna e o seu avental sujo, o rosto cansado, a poeira que gruda nos sulcos fundos das rugas.
— Anna, me diz uma coisa. Você coloca açúcar no seu mingau?
— Eu não tomo mingau. Isso é coisa de velho doente. Vou terminar o meu serviço. Mais alguma coisa, Velho?
Anna aguarda por instantes. Então pega o prato e a colher e se dirige para o cômodo ao lado, para sua lide. Clóvis grita:
— Anna, sua megera. Volta aqui, Anna. Você não quer saber o que eu quero?
Os barulhos recomeçam, fortes, decididos, no cômodo ao lado, enquanto Clóvis grita.
— Eu? Eu quero uma coisa, Anna. Volta aqui, Anna!
Ela retorna, de espanador na mão, sem fazer ruído. Clóvis continua a plenos pulmões:
— Sabe o que eu quero? Eu quero os meus vinte anos, Anna. Anna, você pode me dar de volta os meus vinte anos?
Anna aproxima-se o suficiente de Clóvis para berrar-lhe no rosto:
— Não!
Clóvis se aquieta, calado. Está um tanto pálido, mas não demonstra qualquer comoção. Quando retoma a voz, fala pausado, quase para dentro de si mesmo.
— Anna, Anna, sua bruxa. Você lembra de quando nos conhecemos? Eu tinha vinte anos. Você também tinha vinte anos, Anna. E fazia tanta questão de dizer que era Anna com dois enes. A diferença é que eu não tenho mais vinte anos. Você me tomou os meus vinte anos, e agora só você tem vinte anos, Anna. Anna? Lembro que naquela época você pintava os cabelos.
Eu continuo com dois enes no nome. E ainda pinto os cabelos, Velho, respondeu Anna, ajeitando os fios grossos maltratados e pintados com uma coloração muito escura, que contrastava com o cabelo ralo e sem cor de Clóvis. Pinto os cabelos desde os quinze anos, ela revelou, e o seu tom era ligeiramente melancólico. Sentou-se na beira da cama, bem perto de Clóvis, enquanto ele, com mãos tateantes, procura os cabelos de Anna.
— Anna, por que você cortou os cabelos?
— É muita tinta, Velho. Com tantos remédios para comprar, temos condição para isso?
Clóvis, com ar vago, continua afagando os cabelos de Anna. Um sorriso quase se faz presente no canto do lábio.
— Anna...
— Está na hora do remédio, Velho.
— Você tinha os cabelos dourados. E eles eram suaves como um raio de sol da manhã.
— Deixe-se de poesias baratas, velho bobo.
Anna levanta-se e começa a espanar com furor.
— Você ainda tem os cabelos de ouro, Anna?
— Tinta dourada custa mais caro.
Anna sacode a toalha pendurada num prego, dobra as roupas espalhadas sobre a velha cômoda a um canto. Guarda coisas nas gavetas.
— Ai! Está doendo, Anna.
— Vou lhe dar o remédio.
Anna vai buscar um copo de água e o entrega, junto com dois comprimidos que Clóvis ingere de uma vez só.
— Quero mais.
Ele estende a mão, apalpando a mesinha da cabeceira, onde encontram-se os medicamentos. Com algum esforço, Anna arrasta a mesa e leva-a para o outro lado do cômodo, sob a janela fechada.
— Velho murrinhento. Fique quieto no seu canto.
Anna pega a vassoura e, com certa pressa, varre todo o cômodo.
— Anna?
Ela não responde, empenhada no trabalho.
— Anna, por que é que você está arrumando tudo, hein, Anna? Quem é que vem aqui, Anna com dois enes?
Anna desaparece por instantes e retorna carregando uma pá de lixo. Clóvis começa uma crise de asfixia.
— Deus!
Anna larga a pá, e a pá produz um barulho estrondoso, que ecoa pelas paredes escurecidas de tempo do quarto. Ela corre e segura Clóvis, sufocado e vermelho. Aplica-lhe massagens cardíacas e, aos poucos, Clóvis recobra a respiração, exausto.
— Velho, qualquer dia você me mata de susto.
Clóvis segura os braços de Anna, apalpa-lhe a cintura, os quadris.
— Você engordou, Anna.
— Velho idiota.

Ela levanta-se e desaparece no cômodo ao lado, não sem antes tropeçar na pá de lixo, largada no caminho. Anna solta um palavrão – o palavrão mais cabeludo que conhece e que Clóvis não escuta. Ele está longe, bem longe, embora não possa sair do seu catre. Os barulhos retornam, furiosos, ampliados, enquanto Clóvis delira, a febre muito, muito alta.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O poço


Em pequena ela vira uma casa pintada de rosa e branco com um quintal onde havia um poço com cacimba e tudo. Era bom olhar para dentro. Então seu ideal transformara-se nisso: em vir a ter um poço só para ela. Mas não sabia como fazer e então perguntou a Olímpico: / — Você sabe se a gente pode comprar um buraco? / — Olhe, você não reparou até agora, não desconfiou que tudo que você pergunta não tem resposta? / Ela ficou de cabeça inclinada para o ombro assim como uma pomba fica triste. Clarice Lispector, in A hora da estrela.
 
A Edgar Allan Poe, que nos ensinou que o terror, muitas vezes, pode estar dentro de nós mesmos.

E a Antoine de Saint-Exupéry, para quem o deserto é belo porque esconde um poço em algum lugar.

 
Éramos um grupo razoável, cinco ou seis, remanescentes de uma festa que nem lembrávamos mais por que tínhamos ido. De qualquer forma, era fim de festa, ali por volta de duas ou três da madrugada. Celulares descarregados, ficamos à deriva, à espera de alguma carona, quem sabe, ou, na pior das hipóteses, que o dia clareasse. Enquanto isto, conversávamos futilidades. Quando nos cansamos de tanta inutilidade, passamos aos casos engraçados e pitorescos. De caso em caso, chegamos às histórias antigas de assombração, com seus cemitérios, casas com sótãos e porões cheios de segredos, morcegos, chupa-cabras e fantasmas que pedem carona nas estradas – aquelas histórias cujo final costuma mais render boas risadas do que propriamente provocar arrepios.

Alguém contou a história do “fantasma do corredor”, que só aparecia para as mulheres da família. Os homens juravam nunca tê-lo visto. Ou teriam visto e se calado, como numa espécie de pacto, solidariedade masculina, essas coisas? Ah vá. O fato é que, quando um de nós contava um caso, os demais prendiam a respiração e a interrupção era mínima.  

Os outros já haviam contado suas histórias e aguardavam, certamente, que eu também contasse a minha. Na verdade, eu não tinha nenhuma história sensacional para contar, mas seus olhares me intimavam a arranjar uma. Vasculhei minhas recordações e comecei lentamente a narração.

— Quando eu era adolescente, morei numa casa que tinha um poço.

— Um poço?, perguntou um dos meus companheiros, com um tom de voz que denunciava certa decepção. Mas alguém fez psiu e aguardaram pacientes que eu continuasse.

— Sim, um poço. Daqueles bem antigos. A casa também era antiga, mas não usávamos o poço. Havia água encanada. E ele ficava lá, sem sentido, sem utilidade nenhuma, bem no fundo do quintal. Para disfarçá-lo, haviam colocado, em cima da tampa, uns vasos de plantas bem vistosas, samambaias choronas, avencas... begônias. De vez em quando, eu gostava de retirar a tampa menor, quadrada, que fica no centro da tampa de cimento redonda e enorme do poço. Ficava olhando para dentro do buraco escuro e fundo e às vezes atirava pedrinhas, até ouvir o barulho na água. Blum! Splash!

Eu me esmerava nas onomatopeias, para criar algum interesse na história, mas não encontrava nada digno de nota. Impassíveis, eles prosseguiam firmes à espera da continuação.

— O poço era mesmo bem fundo. Escuro e cheio de mistério. Durante muito tempo, aquele poço no fundo do quintal perseguiu de perto a minha imaginação de adolescente. Às vezes, me pegava pensando se não havia um corpo escondido lá. Outras vezes, também pensava quanto tempo levaria para enchê-lo de pedrinhas até a borda. De vez em quando, também imaginava se alguém caísse no poço e os bombeiros fossem chamados e precisassem descer pelas paredes barrentas e frias, numa operação de salvamento. A imagem daquele poço perseguia meu pensamento e me deixava sempre com um frio na boca do estômago.

Parei para tomar fôlego, esperando algum comentário dos meus companheiros. Mas eles continuavam impassíveis. Percebi que aguardavam algo mais. Um poço, mesmo o mais escuro e fundo e cheio de mistério, perseguindo o pensamento de alguém pode ser fantástico, mas não causa maiores sensações. Eles queriam ação, algo rápido e assombroso, como um conto de Poe. Lembrei-me então de um episódio concreto, ligado ao poço. Ofereci-o, pois, à saciedade de meus companheiros.

— Um dia, um amigo foi nos visitar. Estava passeando tranquilamente pelo quintal, perto do poço, talvez também atraído por ele, como eu, quando de repente o nosso cachorro soltou-se da corrente e avançou para ele, dentes assustadoramente arreganhados, latindo furiosamente. O rapaz começou a correr feito louco ao redor do poço, e o cachorro atrás, correndo também em círculos. Era incrível a velocidade em que os dois corriam. Parecia um carrossel desenfreado. Até que alguém conseguiu controlar o cachorro e levá-lo dali. O nosso amigo, pálido, as pernas bambas do susto e da correria, foi levado para dentro de casa. Eu fiquei imaginando se a tampa do poço estivesse aberta, qual dos dois – homem ou animal – cairia primeiro dentro dele. Certamente seria o homem, no afã de se livrar da mordida do cão. E este, em seguida, pularia no buraco escuro, perseguindo seu intento – cravar fundo os dentes na carne branca do homem.

— Por que vocês não aterravam o poço?, perguntou um dos meus ouvintes, repentinamente interessado.

— Parece bobagem, mas ninguém se atrevia a fazer isto. Era como se o poço fosse um ser vivo, alguém da casa, quase mesmo da família. Quando enfim nos mudamos, as plantas que colocávamos sobre a tampa do poço, e que levamos para a nova casa, eram lembranças vivas dele. Quando íamos molhá-las, elas pareciam nos acusar, agitando as folhas ao contato dos chuviscos, como se fossem dedos em riste nos nossos rostos. Aos poucos, deixamos de molhar as plantas. Como não chovia há muito tempo, elas começaram a secar, acusando-nos duplamente. O remorso se abateu sobre todos da casa. Ninguém dizia nada, mas sabíamos que era a imagem do poço que nos perseguia dia e noite. E, assim como quem não quer nada, apenas para “se lembrar dos tempos da casa antiga”, meu pai mandou construir um poço num canto do quintal da casa nova. A construção foi difícil, mas quando finalmente ficou pronto, os pedreiros estranharam, ao saber que o poço não seria utilizado para fornecer água. É apenas uma peça decorativa, explicava minha mãe, meio sem jeito. Os pedreiros abanavam a cabeça, incrédulos. Peça decorativa no fundo do quintal? Estava pronto o poço e, na medida do possível, tão semelhante ao outro, com a diferença de ser novo em folha. Estava pronto o poço que iria nos redimir. Mas não havia mais begônias, nem avencas, nem samambaias para colocarmos sobre a imensa e circular tampa de cimento.  

Parei de falar e olhei para meus companheiros. Estavam calados, pensativos. Percebi que não esperavam nenhuma continuação da história, nenhum final surpreendente, nenhum suspense ou mistério finalmente revelado. Nada disso.

Lá fora, o dia já clareava. Fomos nos levantando um a um, lentamente, sem palavras. As nossas presenças pareciam incomodar-se reciprocamente. Queríamos ficar a sós, cada um consigo mesmo, cada um com seu poço, isolado do mundo.

Despedimo-nos sem vivacidade, cada um tomando seu caminho. Quando me vi só, respirei fundo, enfim livre. Era como se acabasse de confessar um crime hediondo.

 

 

terça-feira, 28 de junho de 2016

Cantinho da casa dos contos ou o quarto de despejo dos contos

Cantinho criado para "despejar" os contos escritos em diversas épocas, para que não fiquem "entupindo" os arquivos eletrônicos.